quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Para quê professor?

Numa pesquisa realizada em algumas das maiores potências do mundo, os entrevistados tiveram que votar no profissional que eles consideravam o mais importante para o desenvolvimento da nação. Sem hesitar, a resposta surgia após alguns segundos de reflexão: o PROFESSOR!

É um paradoxo que na mesma semana em que o brasileiro comemora o dia dos professores, inúmeros deles estejam sendo vítimas de desvalorização. Desvalorização essa, que parte do aluno e atinge o sistema e a sociedade em geral.
Basta prestar atenção nas estatísticas, para perceber que os alunos buscam cada vez menos os cursos de licenciatura e pedagogia. Em 2007, o MEC divulgou que aproximadamente 70.507 brasileiros se formaram em cursos de licenciatura, o que representa 4,5% menos que em 2006. De 2005 para 2006, a situação chegou a ser mais complicada, a redução foi de 9,3%.
Vários motivos colaboram para o baixo interesse de se exercer a profissão. O primeiro deles, e o mais falado, é o baixo salário, que chega a ser menor ainda em alguns estados do país. O governo, que alega não ter recursos para pagar melhor seu corpo docente, deixa clara a idéia de que melhorar o ensino público, não é uma prioridade.
Outro motivo, e não menos relevante, é a violência crescente dentro das escolas. Atualmente, são comuns as notícias de professores violentados dentro das salas, ou ainda ameaçados. Com isso, surge uma relação de medo entre alunos e professores e uma situação prejudicial para todo o sistema educacional.
A falta de interesse dos alunos, é uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos professores. A arte de lecionar se torna mais difícil e maçante quando se está de frente a um corpo discente desestimulado, sem vontade de aprender e progredir. Muitos alunos vão para as aulas por obrigação, outros em busca da merenda, e há ainda aqueles que encaram a escola como um parque de diversões. Vale ressaltar que esse fato não acontece somente em escolas públicas. O desinteresse para o aprendizado atinge tanto a rede pública, quanto a privada.
Há ainda outro fator fundamental para entender a desvalorização do professor. E por incrível que pareça, esse fator reside nele próprio. Não é difícil encontrar educadores que se aventuraram na profissão e não conseguem se adaptar. Com isso, se tornam amargos e secos. A didática é deixada de lado, e o fato de ensinar se torna pura questão de subsistência. Quando isso acontece, é fácil culpar somente o governo e a sociedade. A falta de recurso ou de um salário bom se tornam desculpas para não tentar, mesmo com todas as dificuldades, fazer o seu papel, ou ainda levar adiante o fino fio da esperança que ainda resta. É assim que surge a má qualidade da educação no que se refere ao conhecimento passado aos alunos e a antipatia dos mesmos pelos professores.
Não precisei ir muito longe para entender e absorver todo esse conjunto de fatores e acontecimentos citados. Durante minha vida escolar, mesmo em escola privada, pude presenciar fatos que me ajudaram a formar essa sólida opinião. E agora, um ano depois de concluir o Ensino Médio, abandonei um curso de Jornalismo para cogitar a idéia de me adentrar num curso de Letras. É claro que já ouvi inúmeras críticas. Colegas que repetem o mesmo discurso clichê de sempre: “Pra quê? Você quer ser professora?”. Engana-se quem pensa que fazer um curso de licenciatura é fácil. O grau de dificuldade é muito grande, e a carga de informações é equivalente e talvez até maior que muitos outros cursos. Basta observar a quantidade de pessoas que entram, e a quantidade que se forma.
Tudo isso só me leva a consolidar ainda mais minha opinião: há muitas pessoas precisando de um professor para abrir-lhes a mente e sair desse mundinho medíocre de ideias prontas e de senso comum.

Dizer o que pensamos de algo ou de alguém, permite que sejamos reconhecidos pelas nossas idéias. Idéias que requerem cobrança de coerência. Nossas opiniões podem gerar agrados ou desagrados, geralmente quando são críticas e autênticas, geram grandes instabilidades, pois mexem com o espírito de mesmice das pessoas. Dessa maneira, o professor aparece na figura de medianeiro na construção do conhecimento. Conhecimento que permite uma maior compreensão e intervenção no mundo em que vivemos. Se construirmos muros ao invés de pontes, nossos conhecimentos se isolarão, perdendo-se enfim.
Terminando com um sábio trecho de Paulo Freire: "Sou professor a favor da esperança que me anima, apesar de tudo. Sou professor a favor da boniteza de minha prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste.”

8 Comments:

Vinícius Aguiar said...

Mais uma vez, palavras geniais amor! Expressou perfeitamente alguns dos problemas pelos quais passa a educação em nosso país!! Parabéns MESMO!

Dinho said...

Muito bem. Vale muito pensar que, apesar da pobresa de conciencia dessa juventude atual, ainda existem pessoas como você, que realmente se preocupam com esses problemas ignorados pela sociedade atual, mas que estão nos fazendo regredir cada dia mais ao invés de evoluir como pessoas humanas, seres pensantes que tem como instinto, a fome pelo conhecimento.
Parabens, e obrigado por seguir meu blog.
xD

Manu said...

Ótimo texto Camila.
Devo dizer q esse semestre estou fazendo didática na faculdade, as coisas realmente não são fáceis e se resume bem ao que disse nesse texto. A desvalorização é grande, mas principamente a situação parece pior visto q muitos profissionais estão descrentes tbm.
Mesmo assim ainda existem aqueles q como disse no trecho de Paulo Freire: "cansa mas não desiste".
Abraços!^^

Luiz Caio said...

Oi Camilla! Como vai?

Todo o oficio é necessário, mas poucos são reconhecidos como se deveria! Acredito que muitas profissões, como o professorado, por exemplo, só existêm, ainda, por um só motivo... O amor à profissão!

Belíssimo texto, ótimo tema!

TENHA UMA LINDA TARDE!

Beijos

Lusca said...

Eu escrevi um texto falando sobre a situação do professor também. Dá uma olhada depois: http://luscakanno.blogspot.com/2009/11/aprender-mais-respeitar-menos.html

Os problemas do ensino são muitos. Eu acredito que melhorar o salário do professor público é uma GRANDE medida para melhorar a situação, mas não é a única, nem vai salvar o ensino público. Um dos grandes problemas da educação é que se acredita que basta ela ter qualidade para mudar o mundo, o que não é verdade. É preciso toda uma alteração não só das escolas para melhorar o índice da educação, mas da vida material dos estudantes de maneira geral. Não existe estímulo para se estudar quando você percebe que seus pais não estudaram e estão aí, qunado você está com fome e cheio de problemas em casa, quando você vê que o cara que vende drogas tem um carrão tocando sua canção favorita na maior das alturas. Para que o povo possa aprender, é preciso que ele tenha condições físicas, mentais e emocionais para isso.

Mas de toda forma concordo com o que você disse, e acho muito bonito que você tenha essa vontade de ajudar as pessoas ensinando =)

Natalia Fênix Gótica said...

Minha situação financeira atual não permite mais eu tambem quero fazer letras em breve, boa sorte a vc...

Leon K. Nunes said...

Há muito de concreto e muito de falacioso nos discursos quando o tema adentra na educação. Eu faço licenciatura, dou aulas, gosto de fazer o que faço - e prefiro escolas públicas a escolas particulares -, mas não tenho esperança de que algo vai mudar na nossa sociedade a partir da Educação. A Educação não muda nada. Muito menos num país como o nosso. Pelo contrário. Hoje, aqui, ela é um instrumento de manutenção das relações de dominação que temos hoje: os filhos da elite estudam em escolas de elite; os filhos da pequena-burguesia (classe média alta) estudam em escolas próprias para eles; os filhos da classe trabalhadora, dos operários, dos lumpen, dos excluídos, estudam em escolas que também se propõem - ideologicamente - à perpetuação desta condição pelas gerações seguintes.

De minha parte, sou totalmente contra incidir o problema da educação nestes dois atores: professores e estudantes. A Educação é, antes de tudo, um problema econômico (pois é ela que vai garantir a reposição dos trabalhadores minimanente qualificados que continuem se dispondo a ser caixa de supermercado ou operário de construtora a baixos salários). Não há discurso de solução dos problemas da Educação que não passe pela minimização da intervenção econômica em seu seio. O que quero dizer? Quero dizer que a elite, ao criar escolas particulares de alta qualidade, com estrutura avançada e professores estimulados (sob pressão), elas destacam os seus filhos, enquanto pressionam o governo a instituir famosos "cortes de gastos" na educação, primeiro diminuindo umas vagas, depois cortando umas merendas, mais à frente acabando com concursos públicos, depois terceirizando os setores da escola, deixando de produzir/comprar livros didáticos e técnicos, etc.

É preciso que primeiro se rompa a lógica de que "o Estado (governo) é corrupto", afinal não existe meio de melhorar a Educação se não for através do Governo. É ele quem deve regular toda a estrutura educacional do país, e não descentralizá-la permitindo que a elite construa suas escolas maravilhosas enquanto o povão, por assim dizer, precise se acostumar com escolas superlotadas e sequer sem um mapa para que professores de Geografia possam trabalhar seus temas.

O problema, portanto, vem de cima, e vem lá de trás. Ele está inserido numa hierarquia definida, assim como está agregado a um interesse histórico (não é à toa que as escolas públicas começaram a ser sucateadas ainda nos anos da ditadura). Os alunos que estão entrando hoje, portanto, não são culpados de nada. O seu desestímulo é reflexo de uma condição histórica. É mantendo os dominados desestimulados que se perpetua uma relação de poder. Foi assim em Grécia e Roma Antiga, no Egito, nos reinados medievais, na Inglaterra da Revolução Industrial, nas colonizações afroamericanas, e é algo que incide até hoje. A história do homem é a história da luta de classes, dizia Marx. A escola não pode se dizer alheia a isso. Ela não pode se pretender ser um instrumento "neutro". Ela precisa fazer uma opção, pelos ricos ou pelos pobres. Eu prefiro fazer pelos pobres, pois são eles - e sempre foram, em todos os tempos, rebeliões, greves, movimentos de libertação e afins - que se levantaram e questionaram um sistema estabelecido. Depois de mudar o sistema e sua lógica, aí sim, mudaremos a Educação. É esta a inversão crucial, que desmonta todo o discurso de proto-heróis como Cristovam Buarque, que dizia que transformaria a Educação, mas não dizia como - como mudar o principal meio de dominação dos que estão no Poder sem se mudar a estrutura do Poder?

Leon K. Nunes said...

Por outro lado, também não é culpa dos professores. Assim como estudantes, eles são reflexos desse problema. Claro que alguns são estimulados e idealistas; mas idealismo não muda o mundo, nunca mudou. O que muda é a ciência, é a postura racional de querer mudá-lo. Essa postura reside na luta, nas greves, nos sindicatos, nas mobilizações, passeatas, no conclamar a sociedade a mudar a estrutura estatal que a mantém na base da pirâmide social. É isso que muda um quadro. O desejo de mudar, frases bonitas ditas na televisão e coisas assim não vão além disso. Deixemos o idealismo para os romances e poesias. No quadro concreto, é preciso tomar a postura. Muitos não tomam porque hoje - convenientemente - dizem desde cedo que fazer movimento é coisa de baderneiro. É curioso que o principal meio de lutas dos trabalhadores (quais os outros? trabalhadores não têm nem advogados) agora seja considerado "baderna". Conveniente, não acha?

Sou marxista como Paulo Freire, e como ele não concebo uma Educação neutra ou distante da realidade. A escola deve ser bem enraizada no nosso quadro social e ter proposta de mudança, de transformação, pois, como dizia ele, até mesmo de pé no chão também se aprende a ler.

Um beijo, muito pertinente seu texto. Até logo!!