sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Ela ainda vive em mim...

Todos os dias quando abro os olhos ela está lá a me olhar num porta-retratos apoiado na estante. Com aqueles olhos doces e aquele sorriso sincero, ela me dá forças para viver mais um dia. Na cômoda também há vários pedaços dela. Um ursinho de pelúcia ganhado nos primeiros anos de vida, outro ganhado numa fase intermediária e ao lado alguns ganhados mesmo depois de adolescente. Quando abro o guarda-roupa, uma peça solitária me chama a atenção. É um vestidinho preto com detalhes cor de rosa, mede apenas alguns centímetros, mas traz de volta uma enorme quantidade de lembranças. Porém, mais do que viver na estante, na cômoda e no guarda-roupa, ela vive em mim. Ela sou eu. Eu sou ela. Doce infância que os anos não trazem mais. Tive uma das melhores infâncias que se pode ter. Uma das lembranças mais fortes que tenho, é a dos fins de semana na fazenda do meu avô paterno. Havia (e ainda há) um rego d’água que passa em frente a casa, o qual caía num poço cimentado e improvisado que chamamos de “biquinha”. Tomei banho nesse lugar durante toda minha infância. Lembro também do meu avô fazendo um balanço para mim todas as vezes que ia lá. O balanço era uma corda amarrada no pé de manga, onde eu apoiava um travesseiro para servir de assento. Eu achava aquilo a melhor coisa do mundo, na cidade não havia balanços que alcançassem grandes alturas como aquele. Eu mirava algumas folhas e tentava alcançá-las com os pés. De manhã, acordava cedo e corria para o curral, onde subia na cerca e ficava a observar o meu pai e meu avô tirar leite. Era sempre recompensada com um copo quentinho e espumado. Como era bom! Hoje meu avô não está mais entre nós, a falta que ele me faz e a falta dos momentos que passei eu não pensei que pudesse ser tão grande. Também há a lembrança marcante dos momentos que vivi numa cidade aqui mesmo do interior de Minas, onde minha mãe nasceu e morou antes de se casar. Lá morava minha avó materna e ainda mora grande parte da família da minha mãe. Como na fazenda, lá eu me sentia livre. Uma cidade muito pequena, onde praticamente não há trânsito. Brincava na rua com meus primos o dia todo. Saía sozinha e me sentia independente. No final da rua da casa da minha avó há um rio, e por cima passa uma ponte, dessas de madeira. Visitar o rio era um programa nobre naquela época. Descer o barranco e colocar os pés na água então, nem se fala. No quintal enorme eu via sempre uma forma de me aventurar. Uma árvore é toda marcada por minhas iniciais. Nos mais altos galhos, pode se encontrar rabiscos feitos por mim, minha irmã e meus primos. Cada parte dela tem uma história para contar. Após o falecimento da minha avó, as visitas se tornaram menos freqüentes e hoje aquela cidadezinha não tem mais aquele mesmo encanto. O quintal que parecia uma floresta, hoje não passa de alguns metros cercados por muro. Porém, ali se encontra histórias inesquecíveis e incomparáveis. Também não posso deixar de lembrar da minha infância brincando com minha irmã mais velha e mais nova. Eram brincadeiras originais que nós mesmas nomeávamos. Há muitas lembranças além dessas que me marcaram mais, como das vezes que eu comia tudo e minha mãe me recompensava com um beijo, ou das vezes que minha mãe sempre me dava um quarto da maça que ela comia, como que num gesto de cumplicidade, além da partilha. De nada me valeria a obrigação de me alimentar forçada sem que isso fizesse sentido para mim, e também não tinha graça comer uma maça inteira, ela não teria gostinho de mãe. Com muita felicidade, minha infância durou pouco. Desde muito cedo me preocupava com assuntos de adultos, sempre tive uma afinidade com a responsabilidade, mesmo que ela não me tivesse sido cobrada. Acredito que amadureci precocemente e deixei para trás muitas características infantis. Talvez seja por isso que hoje me encontro bastante ligada com a minha infância. Eu nunca fui uma menina de sonhar com príncipes encantados e castelos, quase nunca desejei possuir barbies e foram raríssimas as vezes que dei birra para que meus pais me comprassem algo. Eu era uma contradição. Eu fiz questão de abandonar certas características infantis justamente por elas serem infantis. Mas isso não mudou. Agora, sou uma adolescente que refuta a vida clichê vivida pela maioria dos jovens de hoje. Acredito que essa característica me acompanhará por toda a vida. Muitos dirão que com isso perdi parte da minha infância, outros dirão que isso me tornou uma pessoa preocupada demais, mas eu digo que não me arrependo de ter amadurecido assim. Isso tudo me fez ver que a minha verdadeira criança viverá em mim para sempre. Ela simplesmente não deixou de existir a partir do momento que eu me tornei adolescente. E digo que talvez a minha afinidade com as palavras também tenha sido conseqüência da minha precocidade. Como poucas crianças, aprendi a ler e a escrever logo depois de completar 4 anos de idade. Freqüentei o jardim de infância somente 2 meses por achar que tudo aquilo fosse pra crianças mais novas que eu. Não fazia sentido para mim ver as crianças se ocupando de brincadeiras enquanto eu pensava que escola fosse um lugar para aprender conteúdos propriamente ditos. Hoje, aos 17 anos, faltando pouco mais de um mês para chegar aos 18, olho para trás e vejo quão bonita foi minha trajetória até aqui. Sinto-me orgulhosa por ter sido a criança que fui e ser hoje a mulher que sou. Com toda minha luta, sonhos, desejos e anseios, quero continuar fazendo jus a quem me ensinou a viver assim. Vou continuar olhando para a vida com doçura, com os olhos doces já citados. E quem me ensinou tudo isso, principalmente a sonhar e acreditar que tudo é possível, com certeza foi ela: minha infância!
Não me lembro bem a idade que tinha quando essa foto foi tirada, mas gosto muito dela, pois ela reflete perfeitamente a criança que eu era.
Cidade de Bonfinópolis, interior de Minas Gerais. Lugar decisivo
para minha infância feliz!

No meio da foto dá para ver a "biquinha". Não dá para colocar em palavras todo o significado que esse lugar tem para mim.

Casa da antiga fazenda do meu avô, hoje pertence ao meu tio. Na parede da minha memória, esse é um dos quadros que tem maior destaque. Esse lugar me permitiu ser realmente criança, livre de qualquer forma de alienação.
.
"Lembranças são flores do jardim da vida, memórias que guardo da minha infância querida!"

19 Comments:

mundo azul said...

Um passeio pela infância distante...Isso é bom! Sinal de que foram momentos bonitos e inesquecíveis...


Beijos de luz e um final de semana feliz!

Luiz Caio said...

Oi Camilla! Como vai?
O relato de sua infância, me passou um que de tristeza... Como se você estivesse infeliz hoje, e quizesse voltar no tempo!

OS TEMPOS NÃO VOLTAM JAMAIS! MAS TAMBÉM NÃO PARAM, ESTÃO SEMPRE MUDANDO... O BOM TEMPO SEMPRE VEM!

TEHNA UM LINDO FINAL DE SEMANA!
BEIJOSS.

caurosa said...

Oi, Camilla, que belo texto sobre a infância, me emocionou. Parabéns pelo se inteligente blog. Muito bom.
Paz e harmonia para você.

Forte abraço.

CAUROSA - caurosa.wordpress.com

Ígor Andrade said...

Gosto dessas fotos que trazem simplicidade...
Abraço!

Leon K. Nunes said...

Foi tocante mesmo esse relato, você foi muito descritiva, soube retratar muito bem o ambiente e os seus hábitos infantis tanto na fazenda de seu avô e da pequena cidade de Bonfinópolis. Esse texto traz aquela coisa de algo que busca estímulos, é como se fôssemos buscar lá no passado o nosso gosto pela vida, não sei se foi isso que a moveu a escrevê-lo, mas foi isso que eu senti enquanto lia, porque eu mesmo também me lembrava da infância, quando viajava para sítios ou cidades pequenas, e meu maior passatempo era ficar sentado num banquinho que havia logo abaixo de uma mangueira, vendo a boiada pastando um dia inteiro: um programão! Pra quem não gostava de brincadeiras de correr ou gritar como eu, ali era o céu... E essas lembranças se reavivavam em minha mente com muito vigor enquanto lia e fazia essa viagem no tempo com você.

Eu acho que falta muito à gente da nossa geração essa coisa de ver a si mesma como fruto de um tempo, de uma série de experiências. A maioria das pessoas dilui os momentos da vida: infâcia-adolescência-juventude-fase adulta-etc, sem a preocupação de entender o que algo lá na nossa infância possa ter contribuído para o que somos hoje... A coisa de viajar, por exemplo, eu me lembro que pegava um ônibus e viajávamos longamente, passávamos horas e só víamos pastos e verde... Quando muito, a cada meia hora aparecia uma cidadezinha de 300m... Essa coisa do marasmo, do despretensioso perdura em mim até hoje... Não sigo em busca de algo, apenas sigo, apreciando o que está ao redor, mesmo que não haja nada ao redor. Às vezes é triste e solitário pensar assim, o que se justifica comigo que sou essas duas coisas, mas eu seria muito menos triste e muito menos solitário se houvesse mais pessoas assim como você, que valorizasse o próprio passado, que valorizasse essa fase infantil, que não buscasse retardar, num sobrinho, num primo ou, até mesmo, num filho essa coisa da responsabilidade, da preocupação, como se uma criança tivesse que acompanhar os adultos nas suas paranóias intermináveis. Porque pessoas assim vale a pena conhecer e tornam suas vidas muito mais aproveitáveis e apreciáveis; a sua, por sinal, eu aprendi a apreciar e hoje, como disse lá em cima, vir aqui é acompanhá-la numa viagem psicológica bastante reconstrutiva.

E quanto ao seu poema da postagem anterior, ficou belíssimo... muito simples e ao mesmo tempo incisivo. Os últimos versos são, sei lá, conturbados, difíceis de descrever. A despedida é um negócio difícil, sempre...

Se esperava que estivesse tudo bem comigo, creia, de fato poderia até não estar há instantes atrás, mas vir no seu blog e ler o que você escreve é sempre algo tonificante, sempre saio melhor do que entrei.

Foi um prazer, mais uma vez... Beijos!

Mila said...

Meu Deus, que lindo *-*
Lembrei dos tempos em que eu ficava na rua brincando de amarelinha *-*

benechaves said...

Boas recordações, boas recordações, minha cara amiga. E quem não gosta de sabê-las e contá-las? Vivemos sob o signo de lembranças, o dogma maior de nossa existência.
Olha: os fatos relacionados nos tais 'alumbramentos' são verdadeiros sim. Aqui e acolá uma pitada alegórica para 'ilustrar', porém aconteceram comigo.

Um beijo relembrado...

Tarci said...

Ah que saudade que deu da minha. De brincar de subir em árvores, jogar pedrinhas no rio, pra elas pularem duas tres vezes, pegar jauticabas no pé. Brincar de esconde esconde, pega-pega, andar de bicicleta. Minha Infância tbm foi deliciosa, eu tenho uma saudade enorm de grande.

Beijos querida!

Marina C. Lacerda said...

Que texto lindo Camila *_*
As palavras me tocaram bastante e me fizeram dar um mergulho profundo no meu passado, na minha infância; naqueles tempos em que a única responsabilidade era brincar e a única preocupação era com minhas bonecas >.< Que saudaades ...


Ps: Obrigado pelos seus comentários, na verdade pelos seus conselhos :D

Um beijo :*

TARGUM said...

Minha estrela, compartilho contigo dessa mesma alegria! A de poder ter tido uma infância de fato e de direito. Isso não é para qualquer um, visto que a realidade usurpa e aliena...
Cultive essa infância, mesmo que adormecida dentro de ti por longos anos lindinha.
Linus Coronatus

Késia Maximiano said...

Camilla... Sempre bom vim por aqui..
E obrigada pela visita ao Japonês em braile..
Volte smepre que puder =)
Bjosss

Drêycka said...

show de bola!!!!
: )

bj

Youko Watanabe said...

Camilla, que texto lindo. Os olhinhos encheram de lágrimas. Eu queria ter tido uma infância tão bela assim. Ah, o coração encheu de sentimentos tão bons..
Parabens, esses momentos valem a pena serem lembrados. Beijos

Jéssica Ferreira da Silva said...

Querida, todos nós passamos por um periodo onde buscamos forças no que já fomos. A infância é sem dúvidas a fase mais linda da vida, mas a doçura daquela garotinha permanesse em você. Não queira voltar, por mais difícil que seja floreie o caminho pela frente; claro, sem deixar as recordações das rosas do passado.
Ainda neste tempo, o presente, existem coisas boas a serem vividas e é por elas que vc deve lutar.
Falo com conhecimento de causa, já passei pelo que vc está sentindo, segure firme na mão daquela garotinha, mas não deixe que ela a leve de volta a um tempo que não existe mais.

"Se o sol da tarde está lhe tonteando segure a minha mão, eu te ajudarei em parte desse caminho".

Roberta said...

Transmite uma doce nostalgia, é muito bom lembra de momentos felizes independente da época, também tive bons momentos na infância. Há sempre ocasiões que as crianças se sentem no dever ou simplesmente agem mais maduras, mas não acredito que isso seja abandonar a infância precocimente, mas de fato tu se mostra muito mais madura do que determinadas pessoas da tua idade, é como dizem:" tudo depende do referêncial".

;***

Rudsson said...

POxa ... comentado atrasado!

Que tempo bom, que não volta nunca mais.
Eu fico me perguntando, pq eu não encontro uma lâmpada mágica para me levar ao passado só para reviver tudo denovo, sem mudar nada!

BEIJOS

Tatah Marley's Confissões said...

Nossa, que lindo!
x)
O que seria de nós sem nossa doce infancia não é?
Como diz o ditado.. 'Seja criana, mais não seja infantil'.

otimo post!
beijinhos

Youko Watanabe said...

Aii.. saudade de vc por aqui.. seus textos lindos :)

beijos

Teresa said...

ainnnnnnnnn
que saudades da minha infânciaaaaaaaa

assim como vc, aprendi a ler aos 4 anos, com um alfabeto de brinquedo que eu tinha. na escola eu não passei pela alfabetização, pulei do jardim pra 1ªa série.
mas vou te dizer uma coisa: não vi muita vantagem nisso não... se eu tivesse feito a alfa eu ia ter conhecido mais gente, feito mais amiguinhos, brincado mais..... ou seja: seria um ano de INFÂNCIA a mais na minha vida.

bjosssss